A Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira (IAPB) estima que até 90% dos casos de cegueira e deficiência visual possam ser prevenidos ou tratados. De acordo com estudo inédito, a destinação de R$ 1,55 bilhão para a promoção da saúde ocular – menos de 1% do orçamento público da saúde previsto para 2025 – poderia gerar um retorno anual de R$ 42 bilhões, o equivalente a R$ 27 para cada R$ 1 investidos.
O relatório Valor da Visão foi produzido pela Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira (IAPB), Fundação Seva e Fundação Fred Hollows.

As consequências da perda de visão parcial ou total são muitas. Envolvem desemprego, baixa escolaridade, redução de renda, sobrecarga para os cuidadores, problemas de saúde mental e maior risco de acidentes e doenças – fatores que afetam diretamente a realidade socioeconômica do país.
Assim, segundo o estudo, entre os principais benefícios da atenção à saúde ocular estariam ganhos de empregabilidade (R$ 16,8 bilhões) e de produtividade (R$ 9,36 bilhões). Além disso, o investimento em prevenção, diagnóstico precoce e tratamento de doenças oculares também traria benefícios sociais: evitaria 60 mil casos de depressão e quase 14 mil acidentes de trânsito, além de gerar um ganho em escolaridade de 139 mil anos.
Antes da cirurgia, Lorrayne Compri só se sentia confortável usando lentes escuras |
Lorrayne Compri, 36, analista de suporte de vendas, conhece bem os impactos positivos dos cuidados oculares. Moradora de São Carlos (SP), ela tinha estrabismo – doença caracterizada pelo desalinhamento dos olhos – desde os 8 anos e relata ter sofrido bullying por anos na juventude, com consequências graves para sua autoestima e saúde mental.
“Eu sempre adorei tirar fotos, mas sempre olhava para baixo ou escondia os olhos com o cabelo, e só me sentia mais segura com óculos de lentes escurecidas”, conta ela, que viveu até os 30 anos sem acesso à cirurgia em razão dos altos custos do procedimento.
Em 2019, ela pôde, enfim, corrigir gratuitamente o estrabismo, com o apoio do Instituto Verter. “Quando eu cheguei em casa depois da cirurgia e vi meus olhos no espelho, fiquei emocionada e falei para minha mãe ‘estão retinhos, estão retinhos’. Fui à praia comemorar e tirei muitas fotos sem óculos. A cirurgia mudou completamente a minha vida.”
Para Caio Abujamra, presidente do Instituto Suel Abujamra, o investimento em saúde ocular é uma das decisões mais inteligentes que o Brasil poderia tomar. “O impacto vai muito além do financeiro. Quando melhoramos a visão, nós também prevenimos depressão, reduzimos acidentes e aliviamos os cuidadores. O ato de enxergar está relacionado à dignidade e às oportunidades tanto quanto à economia – e em um país onde as desigualdades sociais e econômicas são tão profundas, investir na saúde ocular pode fazer uma diferença decisiva”, diz.
A pesquisa aponta seis áreas prioritárias para os governos prevenirem a perda da visão: detecção precoce por meio de exames nas comunidades – nas escolas, por exemplo –, distribuição de óculos de leitura, aumento da capacidade cirúrgica, melhorias na produtividade cirúrgica e das equipes, e remoção de barreiras ao acesso à saúde ocular – como custo, distância e estigma –, além do aprimoramento da cirurgia de catarata com técnicas inovadores, uso mais amplo de biometria e padrões mais rigorosos de cuidados pós-operatórios.
Um exame simples e de rotina na escola foi responsável por alertar a família de Helena Abia Domingos Lucena, 12, de São Paulo, sobre a possibilidade de diagnóstico de um tumor (neoplasia) de conjuntiva. A lesão surgiu como uma mancha no olho direito quando ela tinha 8 anos. Desde então, a menina sente o olho irritado e a visão embaçada, causando dores de cabeça.
A mãe, a especialista em compliance Carla Kate da Silva, 39, procurou orientação oftalmológica quando os primeiros sintomas apareceram, mas os profissionais indicaram que era apenas uma mancha e os demais sintomas poderiam ser cansaço. Após o alerta dos exames feitos na escola, Helena começou a ser acompanhada pelo Instituto Suel Abujamra.
“Conversei na escola para que os professores deixassem que ela sentasse nas fileiras da frente para enxergar melhor a lousa. Fizemos um tratamento com colírios, o que amenizou os sintomas, tanto que ela ficou alguns meses sem se queixar das dores de cabeça e da coceira. Agora, fazemos o acompanhamento com o Instituto Suel Abujamra para saber como a mancha está se comportanto”, assinala Silva.
“A perda da visão é um problema universal que impacta todas as áreas da vida, mas temos soluções claras para ela. Grande parte dos casos pode ser prevenida com intervenções simples e acessíveis como expandir os testes de visão e melhorar a cirurgia de catarata. Convocamos governos, empresas, escolas e famílias a fazer da saúde ocular uma prioridade. A evidência é clara: ao investirmos na visão, investimos no futuro”, afirma Peter Holland, diretor-executivo da IAPB.
Os seguintes porta-vozes estão disponíveis para entrevistas:
Sobre a IAPB
A Agência Internacional de Prevenção à Cegueira (IAPB) é uma organização global que reúne mais de 250 membros ao redor do mundo, incluindo instituições filantrópicas internacionais, hospitais oftalmológicos, institutos acadêmicos, entidades profissionais e empresas. Seu principal objetivo é acabar com a perda de visão evitável e garantir que todos tenham acesso a serviços de cuidados oculares e reabilitação que sejam acessíveis, inclusivos e a preços justos.