Recuperação judicial bate recorde e aprofunda crise
27 de agosto de 2026
Redação

O Brasil atravessa, em 2026, uma das maiores ondas de reestruturação empresarial de sua história. Levantamento do Monitor RGF-BizDoc, elaborado com dados da Receita Federal e dos Tribunais de Justiça, aponta que o país fechou o primeiro semestre com 6.341 empresas em recuperação judicial ativa — o maior patamar da série iniciada em 2023 e uma alta de 6,2% em relação ao fim de 2025. O número é ainda mais expressivo quando se olha para trás: em 2025, segundo o Indicador de Falências e Recuperações Judiciais da Serasa Experian, 2.466 companhias entraram na Justiça para renegociar dívidas, um recorde histórico. Somente as grandes empresas que pediram recuperação nos últimos dois anos acumulam cerca de R$ 180 bilhões em passivos, conforme estimativa da consultoria RGF.

O avanço não se restringe às gigantes. O crescimento mais forte veio justamente das empresas de menor porte: entre o primeiro trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026, o número de microempresas em recuperação judicial saltou 133%, enquanto as pequenas empresas cresceram 69% e as médias, 31%. O comércio concentra o maior estoque de casos, com 1.649 empresas, seguido pela indústria (1.455) e pelo agronegócio (1.263), setor que mais acrescentou novos processos no período. Juros elevados, inflação, crédito caro e inadimplência crescente aparecem como os principais vetores dessa pressão.

Grandes empresas em recuperação judicial (2026)

EmpresaSetorModalidadeDívidaSituação
Casas BahiaVarejoRecuperação judicialR$ 17,3 biPedido em agosto/2026; fechou 298 lojas e demitiu ~3.000
MarabrazVarejo de móveisRecuperação judicialPedido em agosto/2026
Tok&StokVarejo de móveisRecuperação judicialEm RJ
Grupo PetrópolisBebidasRecuperação judicialEm RJ
PolishopVarejoRecuperação judicialEm RJ
BombrilLimpezaRecuperação judicialEm RJ
Casa do Pão de QueijoAlimentaçãoRecuperação judicialEm RJ
AgroGalaxyAgronegócioRecuperação judicialEm RJ

No varejo, os casos ganharam contornos dramáticos. A Casas Bahia, uma das maiores redes do país, entrou em recuperação judicial em agosto com uma dívida de R$ 17,3 bilhões, apenas dois anos após concluir uma recuperação extrajudicial que havia reestruturado R$ 4,8 bilhões. A crise atingiu em cheio a operação: a companhia fechou 298 lojas e demitiu cerca de 3 mil funcionários, e entre seus principais credores estão Samsung, Electrolux, LG, Motorola, Britânia e TCL/Semp. Na mesma semana, a Marabraz, rede de móveis, também recorreu ao mecanismo. A lista de grandes varejistas em recuperação inclui ainda Tok&Stok, Polishop, Bombril, Casa do Pão de Queijo e Grupo Petrópolis, no setor de bebidas.

O agronegócio também sentiu o baque. A AgroGalaxy, uma das maiores distribuidoras de insumos agrícolas do país, está entre as companhias que pediram recuperação judicial. No setor de energia e commodities, porém, os movimentos mais relevantes vieram pela via extrajudicial. A Raízen, líder na produção de açúcar e etanol e fruto da parceria entre Cosan e Shell, anunciou o maior pedido de recuperação extrajudicial da história do Brasil, envolvendo uma dívida de R$ 65 bilhões. O plano foi homologado pela Justiça de São Paulo em 30 de julho, com adesão de 81,6% dos credores. Dias antes, em março, o GPA (Grupo Pão de Açúcar), uma das marcas mais tradicionais do varejo alimentar, também havia pedido recuperação extrajudicial, citando dívidas de R$ 45 bilhões.

Grandes empresas em recuperação extrajudicial (2026)

EmpresaSetorDívidaSituação
RaízenAçúcar/etanol/energiaR$ 65 biMaior RE da história; homologada pela Justiça de SP em 30/07/2026, com 81,6% de adesão dos credores
BraskemPetroquímica~R$ 56 bi (US$ 10,9 bi)Pedido protocolado em 24/08/2026
GPA (Pão de Açúcar)Varejo alimentarR$ 45 biPedido em março/2026
OncoclínicasSaúdeR$ 5,2 biPedido em julho/2026

Na indústria, o caso de maior repercussão foi o da Braskem, maior petroquímica do país. A companhia protocolou, em 24 de agosto, um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de US$ 10,9 bilhões, equivalentes a aproximadamente R$ 56 bilhões. O plano prevê reestruturar apenas as dívidas financeiras, sem afetar pagamentos a fornecedores e funcionários, e a empresa tem 90 dias para buscar adesão de mais da metade dos credores. A pressão sobre a petroquímica, que tem a Petrobras como acionista com 47% do capital votante, vinha dos detentores de títulos de dívida no exterior, que cobravam um aporte da petroleira — aporte que tem sido recusado em favor de crédito e apoio à reestruturação. No setor de saúde, a Oncoclínicas pediu recuperação extrajudicial em julho para renegociar R$ 5,2 bilhões.

Mas se a recuperação judicial e a extrajudicial representam uma tentativa de sobreviver, a falência é o desfecho definitivo — e, neste ano, teve um caso emblemático. A Justiça do Rio de Janeiro decretou, em 25 de agosto, a falência da Oi, encerrando de vez a recuperação judicial da operadora de telefonia. A decisão unânime da 1ª Câmara de Direito Privado do TJ-RJ restabeleceu a quebra determinada em novembro de 2025 pela 7ª Vara Empresarial da capital, que havia sido suspensa após recursos de bancos credores como Bradesco e Itaú. A derrocada da antiga “supertele nacional”, cuja origem remonta aos anos 2000, deixou uma dívida superior a R$ 44 bilhões. O governo federal minimizou o impacto, avaliando que a medida não afetará os serviços remanescentes, mas a quebra marca o fim de um desmonte que se arrastou por uma década.

Especialistas ouvidos pela imprensa apontam que o cenário ainda pode piorar. Segundo a consultoria RGF, há pelo menos outras 70 companhias com indicadores financeiros críticos e chances elevadas de seguir o mesmo caminho da Braskem. O salto nos pedidos, avaliam analistas, começou com a atualização da legislação em 2020, que tornou mais flexível a adoção das recuperações judicial e extrajudicial, e foi amplificado pelo ciclo de juros altos que encareceu o crédito e asfixiou empresas de todos os portes. A distinção, no entanto, é importante: recuperação judicial e extrajudicial são instrumentos previstos na Lei 11.101/2005 para que a empresa renegocie dívidas e continue operando — não o fim da companhia. A falência, decretada pela Justiça quando não há mais condições de recuperação, é que representa a quebra definitiva. Em 2026, o Brasil viu recordes nos pedidos de socorro e, ao mesmo tempo, a confirmação de que nem todas as gigantes conseguirão escapar do colapso.


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