PIB sobe 0,5%; consumo fraco reforça desaceleração
1 de setembro de 2026
Redação

Resultado ficou acima das expectativas, impulsionado principalmente pela agropecuária e pela indústria extrativa; economistas veem efeitos dos juros elevados sobre famílias, serviços e setores mais dependentes de crédito

A economia brasileira cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 em relação aos três primeiros meses do ano, resultado ligeiramente superior às expectativas do mercado. Apesar da surpresa positiva no número geral, a composição do Produto Interno Bruto (PIB) reforçou a percepção de que a atividade econômica está perdendo velocidade e deve avançar em ritmo mais moderado no segundo semestre.

Pela ótica da produção, a agropecuária foi o principal destaque, com crescimento de 2,8% em relação ao trimestre anterior. Os serviços avançaram 0,2%, enquanto a indústria registrou alta de apenas 0,1%.

Na comparação com o segundo trimestre de 2025, o PIB cresceu 2%. O crescimento acumulado em quatro trimestres ficou em 1,9%.

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Um dos dados que mais chamaram a atenção dos economistas veio do lado da demanda: o consumo das famílias recuou 0,4% em relação ao primeiro trimestre. O resultado indica que, apesar do mercado de trabalho ainda relativamente forte, os juros elevados e as condições mais restritivas de crédito começam a pesar de maneira mais evidente sobre as decisões de consumo.

Para o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, o crescimento de 0,5% ficou um pouco acima da projeção da instituição, de 0,4%. Segundo ele, a abertura dos números mostra que a atividade ainda foi favorecida pela agropecuária, pela indústria extrativa, pelos estímulos governamentais e pelo desemprego baixo.

A indústria de transformação, por outro lado, já sente de forma mais intensa os efeitos da taxa de juros.

Padovani avalia que a contribuição positiva da agropecuária deve perder força a partir do terceiro trimestre, enquanto os efeitos da política monetária restritiva continuarão se espalhando pela economia.

A projeção do BV é de crescimento de apenas 0,2% no terceiro trimestre. Para 2026, o banco trabalha com expansão de 1,9% do PIB.

A leitura é semelhante à do economista Antônio Ricciardi, do Banco Daycoval. A instituição esperava crescimento de 0,3% no segundo trimestre e também atribuiu boa parte da surpresa positiva ao desempenho da agropecuária.

Segundo Ricciardi, quando são analisados os componentes mais sensíveis aos juros, o resultado é menos favorável do que sugere o crescimento geral do PIB.

Os serviços, por exemplo, desaceleraram na comparação anual, passando de crescimento de 2,1% no primeiro trimestre para 1,5% no segundo. O consumo das famílias também perdeu força nessa base de comparação: depois de avançar 1,7% nos três primeiros meses do ano, cresceu apenas 0,5% no segundo trimestre.

A indústria extrativa mineral foi uma das exceções, com expansão de 3,4% frente ao trimestre anterior.

Para Ricciardi, a combinação entre desaceleração do mercado de trabalho, menor expansão da massa salarial e juros elevados tende a manter o enfraquecimento dos componentes mais cíclicos da economia nos próximos meses. O Daycoval revisou de 1,7% para 1,8% a projeção de crescimento do PIB brasileiro em 2026.

O conselheiro da ANCORD Pablo Spyer também considera que o resultado traz sinais claros de desaceleração. Para ele, a queda de 0,4% no consumo das famílias é especialmente relevante porque mostra o impacto dos juros sobre a demanda.

Na avaliação de Spyer, o crescimento ficou concentrado no agronegócio e em alguns componentes dos investimentos, que avançaram 1,2%. Assim, embora o PIB tenha superado as expectativas, a trajetória indica uma economia que continua crescendo, mas em velocidade menor.

A economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, também chama atenção para a diferença entre o resultado geral e sua composição. Segundo ela, o crescimento de 2% na comparação anual ficou ligeiramente acima da projeção da instituição, de 1,9%, mas a moderação do consumo das famílias foi mais intensa do que o esperado.

Na indústria, o desempenho mais forte das atividades extrativas ajudou a compensar a fraqueza dos componentes mais dependentes do ciclo econômico. Para Natalie, os números corroboram a perspectiva de desaceleração gradual da economia brasileira.

Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, destaca que a perda de força ocorre mesmo diante de estímulos fiscais e de um mercado de trabalho ainda robusto. Na avaliação dele, a política monetária contracionista começa a prevalecer sobre alguns dos fatores que vinham sustentando a demanda.

A retração trimestral do consumo das famílias é apontada como uma das principais evidências desse movimento. Na indústria, o crescimento também ficou sustentado pelas atividades extrativas, enquanto segmentos como transformação e construção apresentaram desempenho mais fraco.

A Genial mantém, por enquanto, projeção de crescimento de 1,9% para o PIB em 2026 e estima avanço de 0,2% no terceiro trimestre. Para 2027, a instituição trabalha com projeção de 1,5%, mas considera que os números mais recentes aumentam o risco de um resultado inferior.

O desempenho da economia também entra diretamente no debate sobre os próximos passos da política monetária. Uma atividade mais fraca pode contribuir para reduzir pressões inflacionárias e abrir espaço para novos cortes dos juros, mas os economistas ressaltam que as decisões do Banco Central continuarão condicionadas ao comportamento da inflação, das expectativas e dos cenários fiscal, político e internacional.

A leitura predominante entre os analistas, portanto, é que o crescimento de 0,5% não elimina os sinais de perda de dinamismo. Agropecuária e indústria extrativa ajudaram a sustentar o PIB no segundo trimestre, enquanto consumo, serviços e atividades mais dependentes de crédito começaram a mostrar com maior clareza os efeitos dos juros elevados.

O resultado deixa como principal sinal para o restante de 2026 uma economia que ainda cresce, mas em processo gradual de desaceleração.

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