A distribuição das clínicas odontológicas no Brasil segue um desenho concentrado. Segundo dados do Conselho Federal de Odontologia (CFO) em parceria com a ABIMO, o Sudeste responde por 47% dos consultórios do país, seguido pelo Sul, com 21%. O Nordeste fica com apenas 18%, o Centro-Oeste com 9% e o Norte com 5%. O levantamento aponta ainda que o interior e as áreas rurais seguem com baixa oferta de serviços especializados em todas as regiões.
Na prática, isso significa que o paraibano e o nordestino, de forma geral, têm menos acesso a tratamentos odontológicos de maior complexidade, incluindo técnicas ortodônticas mais recentes, historicamente concentradas nos grandes centros do Sudeste. Um paciente que precise de acompanhamento especializado muitas vezes precisa se deslocar para outro estado, ou se contentar com opções de tratamento mais limitadas na própria região. O desequilíbrio também afeta a atualização técnica dos profissionais locais, que têm menos acesso a cursos, congressos e centros de referência do que colegas do Sudeste e do Sul.

É nesse cenário que se destaca o trabalho do ortodontista Dr. Breno Azevedo. Baseado na Paraíba, ele integra o desenvolvimento do Magic Wire, sistema ortodôntico fixo que dispensa o uso de brackets e tem sido adotado por profissionais credenciados em diferentes estados do país. A trajetória chama atenção justamente por inverter uma lógica comum ao setor, em que inovações tecnológicas costumam nascer nos grandes centros e só depois chegam às regiões mais distantes.
“O que leva as pessoas a adiarem um tratamento ortodôntico hoje é o fato de não aceitarem mais o uso do aparelho tradicional fixo, seja ele metálico, de cerâmica ou de safira. Porque machucam, dificultam a higiene, dão um ar infantil e os tratamentos são mais longos”, afirma o ortodontista.
A técnica desenvolvida na Paraíba se soma a um movimento nacional de crescimento da procura por tratamentos estéticos entre adultos. O Censo da Odontologia 2025, também do CFO em parceria com a ABIMO, aponta aumento significativo na procura por serviços odontológicos entre adultos jovens e pacientes de meia-idade, especialmente em procedimentos estéticos. O movimento é puxado, entre outros fatores, pelo avanço de tecnologias que tornam os tratamentos mais discretos e compatíveis com a rotina de quem já tem carreira consolidada.
Para o especialista, a origem regional do método não é irrelevante, e reforça a ideia de que inovação em saúde não depende exclusivamente da proximidade com os grandes polos econômicos do país.
“O Magic Wire é um sistema fixo colado na face lingual dos dentes, sem a utilização de brackets, diferença central em relação aos aparelhos linguais convencionais, historicamente associados pela categoria a desconforto, lesões na língua e alteração da fala. O fio fica posicionado no mesmo eixo do centro de resistência do dente, que é o local onde se aplica menor força e se tem maior resultado”, explica.
Segundo ele, o intervalo entre manutenções também é mais espaçado que o de sistemas tradicionais, o que facilita o acompanhamento de pacientes que vivem longe dos grandes centros e precisam se deslocar até uma clínica credenciada com menos frequência.
“As manutenções são feitas a cada dois meses, nos aparelhos convencionais elas são mensais, e nos alinhadores, a cada 15 dias”, detalha.
O ortodontista reforça, no entanto, que o acesso a qualquer técnica especializada depende de profissionais devidamente capacitados, e que o crescimento do setor no Nordeste passa por formação técnica, e não apenas pela chegada de novas tecnologias. Para ele, reduzir a desigualdade regional na odontologia exige investimento contínuo em capacitação, e não apenas a disponibilidade de equipamentos ou materiais mais modernos.
“Por se tratar de técnica com protocolo próprio, a aplicação sem capacitação adequada pode gerar movimentações indesejadas, comprometer a saúde periodontal e agravar o quadro em vez de corrigi-lo”, pondera.