Mercado ilegal recua, mas fica com 44% das bets ilegais
13 de agosto de 2026
Redação

Estudo aponta avanço após regulamentação do setor, mas revela que mais da metade dos entrevistados apostou em sites sem reconhecimento facial; plataformas autorizadas já recolheram quase R$ 10 bilhões em tributos e destinações legais

O mercado clandestino de apostas online perdeu espaço no Brasil no primeiro semestre de 2026, mas ainda responde por uma parcela expressiva das bets realizadas no país. A estimativa é que entre 38% e 44% das apostas online ocorram em plataformas ilegais, percentual inferior aos 41% a 51% identificados no levantamento anterior, divulgado em junho de 2025.

Os números fazem parte do novo estudo “Dimensionamento e combate do mercado ilegal de apostas no Brasil”, elaborado pela LCA Consultores a partir de dados da pesquisa “Incidência de apostas ilegais no Brasil”, realizada pelo Instituto Locomotiva a pedido do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR).

A pesquisa do Instituto Locomotiva foi realizada em maio de 2026, em todo o país, e ouviu 2.291 jogadores. Apesar da redução estimada da participação do mercado clandestino, os resultados mostram que práticas incompatíveis com as regras do mercado regulamentado continuam presentes entre uma parcela significativa dos apostadores.

Considerando os três meses anteriores à pesquisa, 53% dos entrevistados afirmaram ter apostado em sites que não exigiram reconhecimento facial. Outros 48% utilizaram sites cujo endereço não terminava em “.bet.br”, domínio obrigatório para as plataformas autorizadas a operar nacionalmente.

O levantamento também identificou meios de pagamento proibidos no ambiente regulamentado: 37% fizeram depósitos utilizando cartão de crédito e 23% recorreram a criptoativos.

Regulamentação começa a produzir efeitos

Para o presidente executivo do IBJR, Carlos Lima, a diminuição da participação das plataformas clandestinas indica que a regulamentação e as medidas de repressão ao mercado ilegal adotadas pelo Governo Federal começam a apresentar resultados.

Segundo ele, o desafio é manter o avanço, reforçando o combate aos operadores clandestinos e garantindo segurança jurídica e previsibilidade ao setor. Lima alerta ainda para o risco de novas exigências aplicadas exclusivamente às empresas autorizadas criarem assimetrias capazes de tornar as plataformas ilegais mais atraentes para parte dos consumidores.

A regulamentação brasileira das apostas de quota fixa está em vigor desde 1º de janeiro de 2025. Desde então, somente operadores licenciados podem atuar legalmente no país. Essas empresas precisam cumprir obrigações tributárias, regras operacionais e mecanismos destinados à proteção dos apostadores.

No primeiro ano do mercado regulamentado, dados do Ministério da Fazenda citados no estudo indicam que as casas de apostas contribuíram com R$ 9,95 bilhões em tributos e destinações legais, com recursos destinados a áreas como esporte, turismo, segurança pública e educação.

Além dessa arrecadação, cada plataforma autorizada recolheu R$ 30 milhões em outorga para operar no mercado brasileiro.

O estudo “Panorama do mercado de apostas de quota fixa” aponta ainda que as operadoras regulamentadas realizaram aproximadamente R$ 7,5 bilhões em investimentos de capital social, com geração estimada de 15,5 mil empregos diretos e indiretos.

LCA aponta redução da incerteza sobre mercado clandestino

O diretor de Regulação e Políticas Públicas da LCA Consultores, Eric Brasil, avalia que os resultados indicam não apenas uma redução relativa da participação dos operadores ilegais, mas também maior precisão na estimativa sobre o tamanho desse mercado.

Para ele, o cenário sinaliza avanços decorrentes tanto da regulamentação quanto das ações contra plataformas clandestinas. O estudo, no entanto, reforça a necessidade de continuidade das iniciativas de fiscalização para reduzir ainda mais a presença de operadores não autorizados.

Jovens e pessoas de menor renda têm forte presença

A pesquisa traçou também o perfil dos apostadores elegíveis ao mercado ilegal. Entre eles, 51% são mulheres e 49% são homens.

A maior concentração está entre os mais jovens: 54% têm entre 18 e 29 anos. A renda também chama atenção: 51% recebem até dois salários mínimos.

O peso das plataformas associadas a práticas informais é significativo no comportamento desses consumidores. Aproximadamente 51% afirmam utilizar somente esse tipo de plataforma. Outros 36% dizem realizar nelas a maior parte de suas apostas.

Para 8%, essas plataformas representam aproximadamente metade das apostas realizadas. Outros 6% afirmam utilizá-las para a menor parte das apostas.

Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, considera que o levantamento mostra uma redução ainda discreta da participação das apostas ilegais e que o problema permanece em patamar elevado. Segundo ele, cerca de metade dos apostadores brasileiros ainda transita pelo mercado não licenciado.

Meirelles destaca, por outro lado, que existe uma percepção disseminada sobre a necessidade de enfrentar o problema: até mesmo consumidores que utilizam sites clandestinos consideram que o país deve intensificar o combate a essas plataformas.

Apostadores reconhecem riscos das bets ilegais

Um dos resultados considerados relevantes pelo levantamento é a percepção dos próprios apostadores sobre os riscos associados às operadoras clandestinas.

Ao todo, 77% concordam total ou parcialmente que as bets ilegais são mais perigosas porque não cumprem regras e normas destinadas à promoção do jogo responsável.

Outros 13% não concordam nem discordam dessa afirmação. Já 5% discordam parcialmente e outros 5% discordam totalmente.

Para as entidades responsáveis pelo levantamento, os resultados reforçam a importância da fiscalização e das medidas adotadas pelo Governo Federal contra plataformas que atuam fora das regras estabelecidas para o mercado brasileiro.

Como saber se uma bet está autorizada

Com a regulamentação, alguns critérios permitem ao apostador identificar se uma plataforma está autorizada a funcionar no Brasil.

O primeiro deles é o endereço eletrônico: as operadoras regulamentadas precisam obrigatoriamente utilizar o domínio “.bet.br”. Uma plataforma que não utilize essa terminação não possui autorização para operar nacionalmente dentro do mercado regulado.

As empresas licenciadas também precisam adotar procedimentos rígidos de cadastro e identificação. Entre eles está o reconhecimento facial, utilizado, entre outras finalidades, para impedir o acesso de menores de 18 anos. O cadastro envolve ainda documentos e outras verificações destinadas a identificar o apostador.

As plataformas regulamentadas devem oferecer ferramentas para definição de limites de tempo e de perdas financeiras, além de mecanismos de autoexclusão para jogadores vulneráveis.

Há restrições também nos meios de pagamento. As operações autorizadas permitem transações por Pix e débito em conta pertencente ao titular do cadastro. Cartões de crédito e criptomoedas não são aceitos como formas de pagamento no mercado regulamentado.

Para auxiliar na verificação, o IBJR mantém o serviço BetAlert, no qual o consumidor pode consultar se determinada bet está ou não regulamentada pelo Governo Federal.

IBJR reúne empresas do setor

Fundado em 2023, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) reúne empresas nacionais e internacionais do mercado de apostas e tem como objetivo declarado contribuir para a construção de um ecossistema de apostas online íntegro, sustentável, responsável e regulamentado.

A atuação da entidade está concentrada em dois pilares: combate ao mercado clandestino e promoção do jogo responsável. O instituto defende que a regulamentação é necessária para garantir segurança aos apostadores e operadores, fortalecer a atividade econômica e enfrentar empresas que funcionam à margem das normas brasileiras.

Entre os membros informados pelo IBJR estão A2FBR, bet365, BandBet, BetBoom, BetMGM, Betsson Group, Digiplus (BingoPlus), Entain (Sportingbet e Betboo), Flutter Brazil (Betfair e BetNacional), Kaizen Gaming (Betano), KTO Group, Novibet, Skill on Net (Bacana Play e PlayUzu) e Todos Querem Jogar (Bet do Milhão).

Também aparecem como associadas Better Collective, Clever Advertising, OKTO e ÚNICO.

Quem realizou os estudos

A LCA Consultores é especializada em estudos de políticas públicas e impacto regulatório e desenvolve análises de economia aplicada a empresas e diferentes setores. A consultoria atua junto a companhias, investidores, reguladores e formuladores de políticas públicas e informa já ter exportado seus serviços para mais de 25 países, com participação em mais de 450 projetos por ano.

Já o Instituto Locomotiva, fundado em 2016, atua na produção de pesquisas destinadas a transformar dados em estratégias para empresas, instituições públicas e organizações do terceiro setor. O instituto trabalha com diferentes metodologias para identificar comportamentos, percepções e demandas de cidadãos e consumidores.

Mesmo com a melhora registrada entre 2025 e 2026, os dados mostram que o mercado clandestino permanece como um dos principais desafios da regulamentação brasileira. Com até 44% das apostas online ainda estimadas fora das plataformas autorizadas, fiscalização, identificação dos operadores ilegais e proteção dos consumidores continuam no centro do processo de consolidação do mercado regulado no país.

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