Mercado alerta para dívida pública em 2027
6 de setembro de 2026
Redação

O mercado financeiro brasileiro convive com duas perspectivas distintas para a economia: de um lado, cresce a expectativa de melhora da atividade com a redução dos juros; de outro, a trajetória da dívida pública mantém aceso o alerta sobre a sustentabilidade das contas do país no médio e longo prazo.

Pesquisa da PwC aponta que 68% dos CEOs do setor financeiro esperam uma aceleração da economia brasileira em 2026. O otimismo, porém, não se repete na mesma intensidade quando os executivos analisam os próprios negócios. A parcela que demonstra confiança no crescimento das receitas caiu de 62% para 48%.

Para André Matos, CEO da MA7 Capital, os números revelam expectativas relacionadas a momentos diferentes do ciclo econômico. A aposta na retomada está associada principalmente à perspectiva de redução dos juros, enquanto os resultados atuais das empresas ainda refletem os efeitos da política monetária restritiva.

Segundo ele, o aperto monetário chega à economia com defasagem e continua atingindo crédito, consumo e investimento. Por isso, uma aceleração mais consistente da atividade econômica tende a depender da continuidade dos cortes de juros e da transmissão desse movimento para famílias e empresas.

O cenário fiscal, no entanto, aparece como um dos principais riscos. Projeções reunidas pelo Banco Central citadas pelos especialistas indicam que a dívida bruta pode avançar de 82,5% para 100,1% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2034.

Na avaliação de Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital, crescimento econômico no curto prazo e deterioração fiscal no longo prazo podem ocorrer simultaneamente. Para mudar a trajetória do endividamento, ele aponta a necessidade de resultados primários positivos e persistentes, além de juros menores e medidas capazes de reduzir o prêmio de risco.

A imagem atual não possui texto alternativo. O nome do arquivo é: eff99352da9aa359f20d6bd9a2dc1127.jpg

A situação fiscal também pode limitar os benefícios de uma eventual redução da Selic. Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, avalia que juros básicos menores não significam necessariamente uma queda proporcional no custo dos empréstimos. Caso as incertezas fiscais continuem pressionando as taxas de longo prazo e os spreads bancários, parte do alívio monetário poderá não chegar integralmente ao consumidor e às empresas.

O ambiente também aumenta a importância de fontes alternativas de financiamento. Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, destaca o papel dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) no direcionamento de recursos do mercado de capitais para empresas e cadeias produtivas, reduzindo a dependência exclusiva do crédito bancário. Ele ressalta, porém, que a expansão exige maior rigor na análise da capacidade de pagamento, das garantias e da qualidade dos recebíveis.

No mercado de venture capital, a perspectiva de juros menores também pode favorecer novas rodadas de investimentos, fusões e aquisições. Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest, pondera que o risco fiscal deve manter os investidores seletivos, privilegiando empresas com receitas consistentes, eficiência operacional e menor dependência de aportes sucessivos.

Para Letícia Moschioni, sócia da Finscale, a diferença de 20 pontos percentuais entre os executivos que esperam aceleração da economia e aqueles que confiam no crescimento das próprias receitas é um dos principais sinais do levantamento. Ela observa que uma expansão do PIB não se transforma automaticamente em aumento de faturamento, porque as empresas ainda enfrentam fatores como custo do capital, concorrência e pressão sobre as margens.

O cenário internacional acrescenta outra variável à equação. Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, destaca que o comportamento dos juros nos Estados Unidos, do dólar e do fluxo de recursos para os mercados emergentes também poderá influenciar a intensidade de uma retomada brasileira. Um aumento da percepção de risco fiscal pode pressionar o câmbio e reduzir o espaço para novos cortes de juros.

Apesar das diferenças nas análises, os especialistas convergem em um ponto: uma recuperação sustentável não depende apenas da queda da Selic. Para impedir que a dívida pública ultrapasse o tamanho da economia na próxima década, o Brasil terá de combinar crescimento, controle das despesas, resultados fiscais consistentes, aumento da produtividade e redução do custo de financiamento da dívida.

Compartilhe: