Maior taxa desde 2006: especialistas divergem
8 de maio de 2025
Redação

Na última quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou a taxa básica de juros, a Selic, em 0,50 ponto percentual, atingindo 14,75% ao ano — o maior nível desde 2006. A decisão reflete a estratégia de combate à inflação elevada, mas também reacende debates sobre os efeitos dessa política no crescimento econômico, na inflação futura e na estabilidade financeira do país.

Visão otimista: controle da inflação e sinais de vigilância

Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, avalia que o movimento do Copom foi em linha com as expectativas do mercado e sinaliza uma estratégia de juros elevados por um período prolongado. Ela destaca que, apesar do aumento, o comunicado do BC foi “levemente dovish”, indicando que a autoridade monetária pode pausar o ciclo de alta, a menos que o cenário externo ou interno piore significativamente. Victal reforça que a avaliação do cenário internacional, especialmente as incertezas globais, influenciou a decisão, enquanto o mercado de trabalho brasileiro mantém dinamismo, o que pode ajudar a conter pressões inflacionárias futuras.

Para ela, a sinalização de vigilância e a manutenção da projeção de Selic a 14,75% em 2025 indicam uma postura cautelosa, com o Banco Central atento às variações do cenário externo e interno. A percepção é de que o BC busca equilibrar o controle inflacionário sem comprometer de forma severa o crescimento econômico.

Visão crítica: juros elevados podem frear a economia e aumentar desigualdades

Por outro lado, economistas como Felipe Queiroz, da APAS, e Flávio Roscoe, da FIEMG, alertam para os efeitos colaterais dessa política monetária. Queiroz aponta que, ao manter juros elevados, o Brasil prejudica a atividade econômica, reduzindo o consumo, dificultando o acesso ao crédito e agravando o ambiente de investimentos. Ele critica o fato de o Banco Central agir de forma contrária às tendências internacionais, como os EUA, que atualmente adotam uma postura mais acomodativa, visando estimular a economia.

Roscoe reforça que a elevação da Selic limita investimentos e aumenta os custos de produção, impactando negativamente a competitividade da indústria brasileira. Ele também destaca que o cenário de guerra comercial e a alta volatilidade do dólar, resultantes das tensões entre EUA e China, agravam a situação, elevando os custos de importação e pressionando a inflação de alimentos e energia, itens que têm baixa sensibilidade às variações de juros.

Perspectivas futuras: incerteza e cautela

Paulo Gala, do Banco Master, nota que o cenário atual é de espera, com o Fed e o Copom adotando uma postura de observação diante das incertezas econômicas globais e domésticas. Gala destaca que o Copom deixou a porta aberta para futuras decisões, sinalizando cautela e uma possível pausa ou até mesmo uma alta maior na próxima reunião, dependendo da evolução do cenário.

Especialistas divergem, ainda, quanto à possibilidade de uma reversão dessa política de juros elevados. Enquanto o mercado internaliza o impacto de uma taxa de 14,75% como um freio severo à atividade, há quem defenda que a manutenção de juros tão altos por período prolongado pode prejudicar o crescimento de médio e longo prazo, além de ampliar desigualdades sociais.

Conclusão: um cenário de incerteza

O aumento das taxas de juros mais expressivo desde 2006 evidencia a preocupação do Banco Central em conter a inflação em um contexto de instabilidade global, guerra comercial e volatilidade cambial. Contudo, os efeitos econômicos dessa política ainda serão sentidos nos próximos meses, e o cenário permanece de alta incerteza, com risco de desaceleração econômica e aumento das desigualdades sociais.

Especialistas concordam que o Brasil precisa repensar suas metas de inflação e buscar um equilíbrio mais sustentável entre controle inflacionário e estímulo ao crescimento, especialmente em um ambiente internacional cada vez mais desafiador. A estratégia adotada pelo BC, de manter juros elevados, deverá ser monitorada de perto, pois seu impacto se estenderá por toda a economia brasileira nos próximos anos.

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