Idealizadora de startup explica reinvenção
9 de março de 2026
Redação

Em meio à maior desaceleração da economia brasileira nos últimos cinco anos, após o Produto Interno Bruto (PIB) registrar 2,3 pontos percentuais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os empreendedores entram no mês de março apreensivos diante da retração no consumodevido aos juros mais elevados sentidos pela rede de comerciantes. 

Na tentativa de conter a inflação do país, a oscilação na economia entra como mais um desafio estrutural para os empreendedores – principalmente na comunidade negra. Peça fundamental na manutenção dos negócios, o esfriamento no consumo das famílias, que saiu de 5,1% em 2024 para 1,3% em 2025, tem preocupado as comunidades afroempreendedoras em todo o Brasil. 

De acordo com a CEO e fundadora da startup ‘Afrocentrados Conceito’, Cynthia Paixão, esse cenário de incertezas escancara uma realidade desfavorável para os ‘pequenos negócios’ nas comunidades afroempreendedoras, que são as primeiras a sentirem os efeitos da desaceleração. “Quando analisamos as consequências dessa redução no consumo, é preciso considerar ‘quem’ historicamente opera com menor acesso a crédito, menor capital de giro e maior exposição à informalidade. Nas periferias, especialmente entre mulheres negras, o negócio muitas vezes sustenta uma família inteira. Não estamos falando de complemento de renda, mas da base econômica doméstica. Qualquer oscilação afeta toda uma cadeia”, comenta. 

A imagem atual não possui texto alternativo. O nome do arquivo é: 78805a221a988e79ef3f42d7c5bfd418-18.png

Com atuação direta na estruturação de marcas afrocentradas em Salvador, Cynthia aponta que o problema não é apenas a queda no consumomas a combinação entre juros elevados, dificuldade de financiamento e barreiras de mercado. “A empreendedora negra já começa em desvantagem estrutural. Ela paga mais caro para produzir em pequena escala, têm menos acesso a crédito produtivo e enfrenta resistência para ocupar espaços comerciais consolidados. Em momentos de desaceleração, essa conta pesa ainda mais, afetando uma rede de milhares de afroempreendedoras, não só no Nordeste, mas em todo o país”, explica. 

É nesse cenário que a ‘economia criativa’ tem se consolidado como estratégia de reinvenção. Dados da Firjan apontam que o setor representa cerca de 3% do PIB nacional, mas, nos territórios periféricos, ele assume um papel ainda mais relevante, visto que é considerado a porta de entrada para a formalização, geração de renda e mudança de vida. Segundo Cynthia, que atua na vanguarda da gestão e impulsionamento de marcas afrocentradas, nichos de moda afro, cosméticos naturais, gastronomia ancestral e design identitário passaram a integrar uma lógica de mercado estruturada, a partir de iniciativas como a Afrocentrados Conceito

À frente de uma startup que movimenta mais de meio milhão de reais com cultura autoral e economia criativa em Salvador, Cynthia defende que a profissionalização é o que diferencia ‘sobrevivência’ de ‘crescimento’. A gestora tem observado ao longo dos anos que, embora os negócios afrocentrados sejam vetores na geração de renda para o país, a falta de suporte e de um ecossistema que gere visibilidade, estratégia e infraestrutura comercial afeta a sustentabilidade do pequeno negócio. 

“Criatividade sempre foi um ativo presente na comunidade afroempreendedora. O que historicamente nos faltou foi acesso à estratégia e às ferramentas de mercado, especialmente para quem iniciou na informalidade, sem orientação sobre comércio e posicionamento. A partir do momento que estruturamos a precificação com margem real, organizamos planejamento de coleção, calendário comercial e presença digital estratégica, essa empreendedora deixa de depender da venda sazonal e passa a operar com previsibilidade, construindo demanda e consolidando marcas”, comenta. 

Em Salvador, esse movimento tem fortalecido não apenas marcas, mas trajetórias de vida. Empreendedoras que iniciaram vendendo de forma informal hoje operam com CNPJ, planejamento anual e metas de expansão. O que antes era  renda instável tornou-se um negócio estruturado, capaz de gerar emprego e circular recursos dentro das próprias comunidades.

Apesar da desaceleração econômica, as mulheres negras têm respondido com organização coletiva, identidade de marca e inteligência comercial. Segundo a CEO da Afrocentrados, é possível romper com o contexto historicamente marcado por desigualdades raciais e de gênero, consolidando marcas que dialogam com moda, design, gastronomia, cosméticos naturais e produção cultural, ampliando sua presença no mercado local e nacional.“Muitas das mulheres que hoje integram a rede iniciaram suas trajetórias vendendo de porta em porta, em feiras livres ou pelas redes sociais, enfrentando instabilidade de renda e ausência de capital de giro. A transição para um modelo mais estruturado representa o crescimento econômico e a reinvenção profissional. Ao se reconhecerem como empresárias, passam a adotar estratégias de planejamento, controle de estoque, formalização e fortalecimento de identidade de marca”, conclui Cynthia

Compartilhe: