Guerra impacta nos juros, dizem economistas
19 de março de 2026
Redação

O Banco Central iniciou o ciclo de redução da taxa básica de juros com um corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14,75% ao ano, em uma decisão amplamente esperada pelo mercado. Apesar do movimento, economistas avaliam que o cenário internacional, marcado pela escalada do conflito no Oriente Médio e pela alta do petróleo, tende a limitar o ritmo de queda dos juros nos próximos meses e manter o crédito caro no país.

Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, o choque externo ganhou peso e pode interferir diretamente na condução da política monetária. Segundo ele, a alta recente do petróleo para patamares entre US$ 110 e US$ 115 pressiona custos em cadeia — de combustíveis ao frete — e pode manter as expectativas de inflação elevadas. “Se esse choque persistir, ele aumenta a chance de o ciclo de queda da Selic ser mais lento e até sofrer pausas, porque o Banco Central pode preferir esperar a inflação e as expectativas acomodarem antes de acelerar novos cortes”, afirma.

Na avaliação de Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, o corte tem impacto limitado sobre o crédito. “Na prática, o corte de 0,25 ponto não destrava o crédito, porque o custo segue elevado e o sistema bancário continua seletivo. A alta do petróleo pressiona os custos e aumenta a necessidade de capital de giro das empresas, o que pode elevar a demanda por crédito em um momento de restrição”, explica. Ele acrescenta que, nesse ambiente, estruturas como FIDCs tendem a ganhar espaço como alternativas de financiamento, enquanto o crescimento em 2026 deve ser mais contido.

Fabio Louzada, CEO da B7 Business School, vê o movimento como parte de um processo mais amplo e gradual. Para ele, o cenário reforça a necessidade de decisões mais técnicas por parte dos investidores. “O corte de 0,25 ponto marca mais um passo importante dentro de um ciclo que tende a ser gradual, mas consistente. Esse ambiente amplia o papel da educação financeira e favorece estratégias de longo prazo mais equilibradas e resilientes”, avalia.

Já Peterson Rizzo, gerente de Relações com Investidores da Multiplike, destaca que o nível atual de juros ainda é elevado e insuficiente para impulsionar de forma imediata a economia. “É uma sinalização, mas ainda não reflete um alívio imediato, sobretudo em um ambiente de elevada volatilidade externa. Juros ainda elevados, combinados a um cenário global incerto, tendem a frear consumo, investimentos e crédito, o que pode resultar em uma desaceleração mais perceptível da atividade econômica ao longo de 2026”, afirma.

A leitura de Gabriel Padula, CEO do Grupo Everblue, segue na mesma linha. Para ele, o corte é esperado, mas não altera de forma relevante o custo de captação. “A alta do petróleo pressiona a inflação e reduz o espaço para cortes mais rápidos, o que mantém o crédito caro. Se esse cenário persistir, a economia tende a desacelerar em 2026, com impacto direto sobre investimento e consumo”, diz.

Pedro Ros, CEO da Referência Capital, chama atenção para o impacto sobre estratégias de investimento. “O corte de 0,25 ponto não altera o ponto central, que é a previsibilidade do ciclo. Com juros elevados e pressão inflacionária via petróleo, o ritmo de queda tende a ser mais lento. Isso muda menos o quanto se ganha e mais como se constrói patrimônio”, afirma, destacando que modelos menos dependentes de crédito bancário tendem a ganhar relevância.

Na mesma direção, Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, aponta que o custo de capital segue pressionado. “O corte não muda de forma estrutural o custo de capital, porque a curva de juros permanece elevada. Isso limita a velocidade dos próximos cortes e mantém spreads altos, favorecendo operações de crédito estruturado”, analisa, projetando crescimento mais moderado em 2026.

Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, avalia que, apesar das incertezas, o ambiente ainda oferece oportunidades. “O ciclo tende a ganhar consistência ao longo do tempo, ainda que de forma gradual. Para o ecossistema de startups, isso significa mais disciplina, com capital direcionado a empresas com modelos sólidos, fortalecendo o mercado no longo prazo”, afirma.

A análise do economista-chefe do Daycoval, Rafael Cardoso, reforça a leitura de cautela por parte do Banco Central. Segundo ele, a autoridade monetária iniciou o ciclo de cortes mesmo diante do cenário externo adverso, priorizando o nível elevado de juros e sinais de desaceleração da atividade. “O choque do petróleo aumenta a incerteza, mas não foi suficiente para abortar o início do ciclo. A tendência é seguir com cortes de 0,25 ponto, de forma mais cautelosa, podendo acelerar para 0,50 caso o cenário melhore”, explica.

O próprio Banco Central reconheceu o aumento das incertezas no cenário global, especialmente com impacto sobre inflação e câmbio, e destacou o agravamento dos riscos tanto de alta quanto de baixa. Ainda assim, manteve a estratégia de iniciar o ciclo de redução de forma gradual, preservando flexibilidade para ajustar o ritmo conforme a evolução do conflito e dos preços das commodities.

Instituições financeiras, como o banco BV, avaliam que o ritmo mais lento deve prevalecer ao menos até uma eventual acomodação do conflito, com possibilidade de aceleração apenas em um cenário de alívio nas tensões geopolíticas. A projeção é de que a Selic encerre o ano em torno de 12%, caso esse cenário se confirme.

Já a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC) considera a decisão positiva, mas defende uma queda mais consistente dos juros. A entidade ressalta que o Brasil ainda convive com um dos maiores juros reais do mundo, o que restringe o crédito, encarece o custo de capital e limita o crescimento econômico. Segundo a associação, cada redução de um ponto percentual na Selic poderia gerar economia de até R$ 60 bilhões ao ano com juros da dívida pública.

A ABRAINC também aponta reflexos no mercado de trabalho, com desaceleração na geração de empregos formais. Para o presidente da entidade, Luiz França, “a redução é positiva, mas o país ainda opera com um custo de capital muito elevado, que restringe o crédito e desacelera a atividade econômica”, defendendo a continuidade e o aprofundamento do ciclo de queda para estimular investimentos e ampliar o acesso ao financiamento.

Em meio a esse cenário, o consenso entre analistas é que o início do ciclo de cortes representa um avanço, mas que o ritmo será condicionado, sobretudo, pela evolução do conflito no Oriente Médio, pelo comportamento do petróleo e pelas expectativas de inflação — fatores que devem manter a política monetária em trajetória cautelosa ao longo de 2026.

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