Exploração sexual nas estradas: pesquisa revela avanço
3 de dezembro de 2025
Redação

A Childhood Brasil acaba de lançar a 5ª edição da pesquisa “O Perfil do Caminhoneiro Brasileiro”, uma série histórica de 20 anos realizada em parceria com a Universidade Federal de Sergipe (UFS) desde 2010. O estudo traz um retrato aprofundado das condições de vida, trabalho e percepção dos caminhoneiros sobre as estradas brasileiras, além de apontar indicadores relacionados à exploração sexual de crianças e adolescentes (ESCA).

A decisão de estudar o perfil do caminhoneiro surgiu em 2005, quando a Childhood Brasil identificou a necessidade de compreender a realidade desses profissionais para ir além do combate direto à violação. A primeira edição da pesquisa deu origem ao Programa Na Mão Certa, movimento que reúne empresas, governos e sociedade civil com o objetivo de proteger crianças e adolescentes e reconhece o caminhoneiro como aliado fundamental no enfrentamento da ESCA.

De acordo com Eva Dengler, Superintendente de Programas da Childhood Brasil, a pesquisa ajuda a compreender a realidade da categoria e direcionar políticas públicas e privadas de forma mais assertiva. “O conceito do trabalho é simples: um caminhoneiro que está sendo cuidado e valorizado pode ser convidado a proteger os direitos humanos de crianças e adolescentes”, afirma.

O perfil e os desafios do trabalho precário

O estudo indica que o perfil continua sendo de profissionais homens, com cerca de 45 anos e tempo médio de profissão de 17 anos. 

A pesquisa mostra manutenção da precarização das condições de vida e trabalho, mesmo com a recuperação da renda nominal para R$ 6.000 em 2025 — após a queda para R$ 3.200 em 2021. O poder de compra atual, no entanto, (aproximadamente 4,0 salários mínimos) segue inferior ao registrado em 2010 (5,77 salários mínimos).

A qualidade de vida é fortemente impactada pela insegurança e violência nas rodovias, relatada por 73,8% dos entrevistados, pela má qualidade da infraestrutura viária (66,9%) e pelo longo tempo de afastamento da família (57%). Um dos principais fatores de risco é o longo tempo de espera para carga e descarga do veículo, que gera ociosidade forçada em locais sem infraestrutura. A maioria das paradas acontece em postos de combustível (76,6%).

As condições dos pontos de parada continuam sendo um problema crônico. As queixas se concentram na falta de banheiros limpos (80,0%) , falta de comida boa (70,0%) , falta de comida barata (63,5%), e falta de atendimento médico/odontológico (50,7%). Em paralelo, a demanda por acesso a internet é mencionada por 44,3% dos motoristas, e a necessidade de espaço para atividade física por 37,9%. 

Entre as mulheres caminhoneiras a condição dos banheiros (insalubridade e insegurança) é apontada como “o pior aspecto da profissão”, representando uma barreira para permanência na carreira.

O estigma social e a imagem da profissão

Um dado crítico, e consistente ao longo da série histórica da pesquisa, é que 86% dos caminhoneiros afirmam que a profissão é mal vista pela sociedade. Esse aspecto vai além da percepção dos profissionais e do impacto na qualidade de vida desses trabalhadores: ele influencia na desvalorização do setor e, consequentemente, na falta de atratividade da carreira. 

Maior conscientização e redução de envolvimento

A pesquisa demonstra que o trabalho de conscientização de duas décadas tem resultados positivos, mostrando uma redução contínua e significativa na autodeclaração de envolvimento dos caminhoneiros com a ESCA. Segundo os dados, 96% dos caminhoneiros entrevistados afirmaram não ter tido relações sexuais com crianças ou adolescentes nos últimos cinco anos, um aumento expressivo em relação aos 63% registrados na primeira edição, em 2005. Na amostra geral, a autodeclaração de envolvimento caiu para apenas 4% nesta edição, dado que chegou a 36,8% em 2005.

Este é um avanço considerável em relação aos dados das edições anteriores indica uma maior conscientização da categoria e reconhecimento do tema como uma violação grave.

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