Uma fazenda guardada na memória, um antigo cemitério, crenças transmitidas entre gerações, a relação de um personagem local com a fotografia e as lembranças reunidas ao redor de um fogão de lenha. Histórias que fazem parte do cotidiano e da identidade de Aguiar, no Vale do Piancó, ganharam novos enquadramentos pelas mãos dos próprios moradores da cidade.
Como resultado da oficina gratuita “O Mundo e o Minuto”, promovida pelo Cine Juá – Cinema na Palma da Mão, dez participantes produziram cinco curtas-metragens com cerca de três minutos cada. Realizada entre os dias 8 e 13 de julho, a formação trabalhou técnicas de roteiro, direção, fotografia, som, filmagem e edição, utilizando principalmente o celular.
Idealizado por Vanessa Kypá, o Cine Juá nasceu com o propósito de aproximar o cinema das vivências do Sertão e ampliar o acesso a produções independentes. Nesta terceira edição, o projeto passou a investir também na formação de novos realizadores.

“O Cine Juá sempre partiu da ideia de que o acesso ao cinema também passa pelo direito de se reconhecer na tela. Nesta edição, demos um passo importante ao criar condições para que os próprios moradores produzissem essas imagens. Não se trata apenas de aprender a filmar, mas de entender que suas memórias, seus sotaques e seus modos de viver têm valor e também podem virar cinema”, afirma Vanessa.
A oficina foi idealizada e ministrada por Mila Nascimento, especialista em arte-educação e cineasta formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Com atuação também como produtora e montadora de cinema, Mila desenvolve oficinas de criação com celular e produção de microdocumentários ligados ao cotidiano e ao território. Em Aguiar, essa experiência orientou o processo de criação dos cinco filmes.
“Uma das coisas mais importantes durante a oficina foi mostrar que ninguém precisava buscar uma grande história fora dali. As histórias já estavam nas casas, nas famílias, nos lugares da cidade, nas crenças e nas lembranças de cada participante. A técnica é importante, mas ela vem para ajudar a organizar e dar forma a esse olhar. Quando uma pessoa percebe que pode usar o celular para registrar o que conhece e transformar isso em um filme, ela também passa a reconhecer o valor da própria experiência e do território onde vive”, afirma Mila.

O Sertão contado por quem o vive
Escolhidos e pesquisados pelos próprios participantes, os cinco trabalhos registram lugares, personagens e modos de vida de Aguiar. Em “Tapuio”, o olhar se volta para a Fazenda Tapuio, sua paisagem e as memórias ligadas à vida rural. “O Chão das Almas: a terra que não pertence mais aos vivos” recupera relatos relacionados ao antigo Cemitério das Almas e à história da cidade.
Já “Um Click de Mestre” apresenta Elias Gomes e sua relação íntima e histórica com a fotografia na cidade. “Crenças do Sertão” aborda manifestações de fé e saberes transmitidos oralmente, enquanto “Fogão de Lenha” parte de um elemento presente em tantas casas do interior para falar sobre memória, afeto e migração.
As produções foram apresentadas ao público no dia 15 de julho, durante a noite de cinema do Cine Juá que abriu a programação do Festival João Pedro de Aguiar 2026. Realizada na Praça Miguel Izidro Leite, a sessão contou com a presença dos realizadores e de pessoas retratadas ou homenageadas pelos trabalhos. Agora, os cinco curtas estão disponíveis gratuitamente no canal do projeto no YouTube, ampliando o alcance das narrativas produzidas no Vale do Piancó.
A 3ª edição do Cine Juá – Cinema na Palma da Mão é realizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), por meio do Edital nº 0013/2025 do Fundo de Incentivo à Cultura Augusto dos Anjos (FIC), da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba, com apoio da Prefeitura Municipal de Aguiar, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo.
