Celebrado neste domingo, 13 de setembro, o Dia Nacional da Cachaça coloca em evidência uma bebida que atravessa a história do Brasil e se consolidou como símbolo da cultura e da gastronomia nacional. Na Paraíba, a data também reforça a importância econômica de uma cadeia produtiva que reúne tradição, geração de empregos, turismo e abertura de novos mercados.
A cachaça acompanha a própria formação econômica e cultural do país. A escolha de 13 de setembro remete a 1661, quando a Coroa Portuguesa voltou a permitir oficialmente a produção da bebida no Brasil, depois de um período de restrições. Séculos depois, a cachaça ganhou proteção legal como denominação tipicamente brasileira e passou a ocupar espaço crescente no mercado de bebidas premium.

A Paraíba se consolidou como um dos principais polos brasileiros da cachaça de alambique. A produção estadual é estimada em cerca de 25 milhões de litros por ano e está espalhada por mais de 40 municípios, movimentando engenhos, fornecedores, comércio, gastronomia e turismo.
Um dos principais centros dessa atividade é Areia, no Brejo, reconhecida como Capital Paraibana da Cachaça. A região concentra engenhos que, além da produção, passaram a investir em visitação, gastronomia e experiências ligadas à história da cana-de-açúcar.
Outro destaque é Cruz do Espírito Santo, onde funciona o Engenho São Paulo. Com produção superior a 6 milhões de litros por ano, o empreendimento está entre as maiores referências nacionais na fabricação de cachaça de alambique.
O crescimento do setor também pode ser percebido pela diversidade de marcas, envelhecimentos e novos rótulos. Engenhos tradicionais convivem com empreendimentos que apostam em produção de menor escala, blends, madeiras brasileiras e bebidas voltadas ao segmento premium.
Entre os lançamentos deste período está a Nobre Paraibana, do Engenho Nobre, uma edição limitada produzida a partir de um blend de cachaças envelhecidas em jequitibá-rosa e cerejeira. Em Lagoa Seca, no Brejo, o Engenho Afetuosa também integra essa nova geração de empreendimentos que associa produção artesanal, identidade regional e experiências gastronômicas.
A cachaça produzida no estado também busca ampliar presença fora do país. Em 2023, a Paraíba exportou mais de 50 mil litros da bebida. No ano seguinte, produtores participaram de ações de promoção em Portugal, com rodadas de negócios destinadas à aproximação com compradores europeus.
A internacionalização se soma ao reconhecimento obtido por marcas paraibanas em concursos e rankings especializados, contribuindo para mudar a antiga imagem da cachaça como uma bebida popular de baixo valor agregado.
Hoje, parte da produção é direcionada justamente ao mercado premium, com controle da fermentação, seleção de madeiras, envelhecimento e apresentação de rótulos voltados a consumidores cada vez mais exigentes.
A integração entre cachaça e turismo também ganhou espaço nas políticas públicas estaduais. Em janeiro de 2025, o Governo da Paraíba anunciou incentivo fiscal destinado à transformação de engenhos em empreendimentos turísticos.
A proposta do programa Caminhos dos Engenhos é estimular investimentos de até R$ 5 milhões, por meio de renúncia fiscal, para ampliar a infraestrutura de visitação e fortalecer o turismo de experiência.
O objetivo é transformar a ida ao engenho em uma experiência que vai além da degustação. O visitante pode conhecer o plantio da cana, acompanhar etapas da fabricação, visitar alambiques e tonéis de envelhecimento e conhecer a história das famílias ligadas à produção.
O setor também pode ser beneficiado pelo Cadastur Rural, iniciativa do Ministério do Turismo que permite a inclusão de produtores rurais no cadastro nacional de prestadores de serviços turísticos, abrindo novas possibilidades de acesso a políticas de promoção do turismo rural.
Outra frente de incentivo é o Empreender Rural, que disponibiliza crédito para produtores de cachaça. Os financiamentos variam de R$ 3 mil a R$ 30 mil para pessoas físicas e de R$ 15 mil a R$ 150 mil para pessoas jurídicas, com juros de 0,64% ao mês e prazo de até 60 meses, incluindo carência de até um ano.
Os recursos podem ser utilizados na compra de equipamentos e insumos, modernização dos engenhos, melhoria das estruturas de produção e beneficiamento e adoção de práticas sustentáveis.
Para o secretário executivo do Empreendedorismo, Fabrício Feitosa, o financiamento contribui para fortalecer pequenos e médios produtores e toda a cadeia ligada à bebida.
“É uma política pública que gera renda, movimenta a economia local, estimula o turismo e mantém viva uma tradição que é símbolo da Paraíba”, afirma.

A expansão do mercado também exige controle de qualidade. A fiscalização federal acompanha desde o registro dos estabelecimentos até as condições dos alambiques, rotulagem e coleta de amostras para análises laboratoriais.
O trabalho procura assegurar que a bebida atenda aos padrões oficiais de identidade e qualidade e impedir a comercialização de produtos clandestinos ou adulterados.
Segundo o presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical), Janus Pablo de Macedo, o controle é essencial tanto para proteger o consumidor quanto para preservar a credibilidade da cachaça brasileira.
“A presença da fiscalização agropecuária atua para impedir a circulação de produtos adulterados, clandestinos ou fora dos padrões sanitários”, destaca.
A preocupação inclui a presença de substâncias tóxicas, como o metanol, que pode provocar intoxicações graves e até levar à morte. A fiscalização também protege os produtores legalizados da concorrência de bebidas fabricadas e comercializadas clandestinamente.
Mais de quatro séculos depois de ganhar espaço na história brasileira, a cachaça vive uma transformação. O antigo alambique continua sendo parte essencial da identidade da bebida, mas agora divide espaço com tecnologia, controle de qualidade, novos métodos de envelhecimento, turismo rural e estratégias de internacionalização.
Na Paraíba, essa transformação é especialmente visível. Do Brejo ao Sertão, a bebida deixou de ser apenas produto do engenho para se tornar também ativo turístico, gastronômico e cultural.
Neste 13 de setembro, o Dia Nacional da Cachaça celebra justamente essa trajetória: uma bebida que nasceu nos engenhos, atravessou séculos da história brasileira e hoje busca conquistar consumidores dentro e fora do país — com a Paraíba ocupando posição de destaque nesse mercado.