Déficit global de biocombustíveis pode chegar a 45%
17 de julho de 2025
Redação

O setor de transportes é responsável por 16% das emissões globais de gases de efeito estufa, ficando para trás apenas da geração de eletricidade e da indústria. É um segmento no qual a descarbonização se mostra complexo, com 40% de suas emissões considerando de difícil eletrificação e onde os combustíveis sustentáveis são, no curto e médio prazo, a principal opção viável. No entanto, de acordo com a consultoria Bain & Company, até 2030, haverá um déficit de aproximadamente 20% no fornecimento global de biocombustíveis para aviação, transporte marítimo e rodoviário pesado. Essa lacuna pode subir para até 45% em 2040, caso não ocorram avanços significativos em novos materiais-primas e tecnologias.

Esse cenário já pressiona mercados estruturalmente dependentes de importações estrangeiras, como a União Europeia, e indica um risco crescente às perspectivas da transição energética. É nesse contexto que o Brasil se destaca como um fornecedor estratégico, com potencial real de liderar a resposta global à descarbonização dos transportes. Como líder global na produção de biomassa, com destaque para soja e cana-de-açúcar, o país projeta crescimento da produção de soja a uma taxa de 4% ao ano até 2030.

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Atualmente, 33% da soja brasileira já é processada internamente, com 55% do óleo de soja destinado à produção de biodiesel em 2024, um aumento de 72% em relação a 2017. A capacidade instalada de produção de óleo vegetal no Brasil cresceu 20% nos últimos dois anos e conta com ociosidade entre 10% e 15%, o que permite aumento de produção com investimentos incrementais, segundo a Bain.

O país também possui um parque industrial maduro e consolidado, resultado de décadas de experiência com etanol e biodiesel. A infraestrutura atual de esmagamento e refino é suficiente para atender à demanda de biodiesel projetada até 2029, com novos projetos já anunciados que devem ampliar essa capacidade até 2030. Além disso, a logística nacional já está integrada com o comércio internacional de commodities agrícolas e energéticas.

Outro diferencial é a capacidade de crescimento sustentável sem comprometer a segurança alimentar. Mais de 60% da soja brasileira ainda é exportada in natura, o que abre margem para aumento do processamento doméstico. O crescimento da produção de biodiesel, projetado em 8% ao ano, é superior ao da soja, mas poderá ser sustentado com ganhos de produtividade e expansão sobre áreas já abertas ou degradadas, sem necessidade de desmatamento.

Felipe Cammarata, sócio da Bain, observa que o país também começa a avançar no desenvolvimento de novos materiais-primas. “A macaúba, por exemplo, é uma palmeira nativa com alto rendimento de óleo e que pode ser cultivada em áreas degradadas. Outras culturas rotativas, como camelina e carinata, também apresentam grande potencial e podem ser utilizadas para diversificar a oferta de matéria-prima com menor impacto ambiental, reduzir a dependência de commodities tradicionais e melhorar o uso de áreas agrícolas no período de entressafra”. Cammarata ressalta, no entanto, que para viabilizar a escala produtiva dessas alternativas, ainda são necessários investimentos estruturantes, como adaptados, certificação internacional, capacitação técnica de produtores e adequações logísticas e industriais.

Diante do avanço de regulamentações em grandes mercados consumidores, como o Fit for 55 na Europa e o Inflation Reduction Act nos EUA, a demanda por combustíveis sustentáveis tende a crescer aceleradamente. Com sua oferta abundante de biomassa, experiência técnica e escala industrial, o Brasil pode se tornar um fornecedor-chave de biocombustíveis como SAF (bioquerosene de aviação), HVO (óleo vegetal hidrotratado) e biodiesel para o mundo.

Bain indica quatro passos rumo ao protagonismo em biocombustíveis

  1. Programas de fomento à inovação agrícola, incluindo capacitação de agricultores, incentivos e apoio financeiro ao desenvolvimento tecnológico para adoção de culturas rotativas;
  2. Políticas públicas que garantem previsibilidade regulatória e incentivo à exportação de biocombustíveis e ao uso de materiais primas sustentáveis;
  3. Investimentos em novas plantas de esmagamento, biorrefino e infraestrutura de escoamento adequado a culturas alternativas;
  4. Consolidação de acordos comerciais com mercados estratégicos.

“O Brasil tem a oportunidade de assumir a liderança na produção sustentável de biocombustíveis. Ser o celeiro de bioenergia do planeta é mais do que um papel econômico: é uma estratégia de segurança energética e de contribuição real à descarbonização global”, completa o sócio da consultoria.

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