Crise do crédito expõe fragilidade de grandes empresas
25 de agosto de 2026
Redação

A recuperação judicial das Casas Bahia, com R$ 17,3 bilhões em dívidas, e o pedido de recuperação extrajudicial da Braskem, que envolve cerca de US$ 10,9 bilhões, ou aproximadamente R$ 56 bilhões, colocam em evidência uma crise empresarial que ultrapassa casos isolados e expõe a fragilidade financeira de grandes companhias brasileiras. Ao lado de nomes como Marabraz e Grupo Toky, responsável por Mobly e Tok&Stok, os episódios reforçam a percepção de que o país entrou em um novo ciclo de reestruturações empresariais.

O tamanho do movimento também aparece nos números. O Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, segundo levantamento do Monitor RGF-BIZDOC. O número representa alta de 6,2% em seis meses e de 21,2% em 12 meses, depois de o país já ter encerrado 2025 em nível recorde.

Mais do que uma sequência de pedidos judiciais, o cenário revela a combinação de problemas financeiros e mudanças estruturais que vêm pressionando as empresas. Juros elevados por períodos prolongados, crédito mais restrito, aumento do custo da dívida, endividamento das famílias e menor capacidade de consumo formam um ambiente particularmente adverso para setores dependentes de financiamento e parcelamento, como varejo, móveis, eletrodomésticos e bens duráveis.

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Para Claudio Montoro, advogado especialista em recuperação judicial e professor do Insper, a atual onda não pode ser explicada apenas por erros individuais de gestão. Segundo ele, muitas empresas chegaram a esse ponto carregando estruturas de custos elevadas e níveis significativos de endividamento, enquanto o ambiente macroeconômico reduziu a capacidade de geração de caixa.

O caso das Casas Bahia é emblemático. A companhia tentou diferentes alternativas antes de recorrer novamente à Justiça, incluindo programas de reestruturação, fechamento de lojas, redução de custos, renegociação de passivos e uma recuperação extrajudicial. O grupo também anunciou o fechamento de quase 300 unidades e acumulou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões. A nova recuperação judicial envolve dez empresas do grupo e ocorre apenas dois anos depois da tentativa de reestruturar cerca de R$ 4,1 bilhões por meio de recuperação extrajudicial.

A trajetória mostra um problema recorrente: quando a recuperação judicial finalmente chega, a crise normalmente já avançou por anos. Empresas podem consumir reservas, vender ativos, renegociar dívidas ou contratar crédito cada vez mais caro para manter as operações. Essas estratégias, porém, têm limite.

“Existe um estoque de empresas que conseguiram atravessar o período pós-pandemia consumindo reservas, renegociando dívidas, vendendo ativos ou contratando crédito cada vez mais caro. Essas alternativas podem funcionar durante algum tempo, mas não são infinitas”, afirma Montoro. Para o especialista, quando a geração de caixa deixa de acompanhar a evolução do passivo, a empresa perde progressivamente sua margem de manobra.

A Marabraz ilustra outro componente da crise: os problemas internos podem potencializar os efeitos do ambiente econômico. Além das dificuldades financeiras, disputas societárias afetaram a estrutura de garantias da empresa e dificultaram o acesso a financiamentos em um momento de menor liquidez. A companhia recorreu à proteção judicial para preservar as operações e renegociar aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas.

O varejo, entretanto, enfrenta uma pressão que vai além do custo do dinheiro. A expansão dos marketplaces, das plataformas digitais e de modelos de operação mais enxutos alterou a competição e o comportamento do consumidor. Redes tradicionais precisam investir em tecnologia, logística, eficiência e novos formatos justamente quando o capital está mais caro e disponível em menor quantidade.

“Não basta esperar a recuperação judicial para começar a reestruturar a empresa. O empresário precisa agir quando ainda existe liquidez, confiança dos credores e capacidade de negociação”, diz Montoro. Quanto mais tarde ocorre a reação, segundo ele, menor é o número de alternativas e maior tende a ser o custo da reestruturação.

Braskem amplia dimensão financeira da crise

Se as Casas Bahia simbolizam a pressão sobre o varejo, a Braskem leva a discussão para outro patamar. O Conselho de Administração da petroquímica aprovou nesta segunda-feira (24) o ajuizamento de pedido de recuperação extrajudicial da companhia e de determinadas controladas, com o objetivo de reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras, equivalentes a cerca de R$ 56 bilhões.

A operação ainda depende da formalização dos documentos e do protocolo do pedido. A empresa informou que o procedimento terá escopo estritamente financeiro e não abrangerá obrigações com fornecedores, clientes e demais parceiros comerciais, cujos contratos permanecem vigentes.

Para os credores financeiros abrangidos, porém, a reestruturação poderá envolver alongamento de prazos, carências, mudanças na remuneração, deságios e outras formas de renegociação. A dimensão da dívida faz com que o episódio ultrapasse os limites da companhia e alcance também o mercado de crédito privado.

Entre os ativos potencialmente afetados estão debêntures quirografárias, bonds emitidos no exterior, certificados de recebíveis do agronegócio e produtos estruturados vinculados ao risco de crédito da empresa. Levantamento citado pelo Instituto Empresa identificou pelo menos 78 emissões de COEs relacionadas aos bonds da Braskem, algumas das quais já teriam passado por vencimento antecipado durante a deterioração do crédito.

Também há exposição por meio de CRAs. Um exemplo é a 124ª emissão da Eco Securitizadora de Direitos Creditórios do Agronegócio, originalmente estruturada em R$ 720,7 milhões e lastreada em direitos creditórios devidos pela Braskem.

O impacto potencial chega ainda aos fundos de investimento que carregam ativos ligados à companhia. Fundos de crédito privado, renda fixa e multimercado podem sofrer efeitos sobre marcação a mercado, rentabilidade e liquidez caso tenham exposição a debêntures, bonds, CRAs ou outros instrumentos vinculados à Braskem.

O alerta é especialmente relevante porque esses ativos não contam com a proteção ordinária do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O fato de um produto ter sido distribuído por um banco ou corretora, portanto, não significa garantia de restituição do capital investido.

Para Nicole Berto, executiva do Instituto Empresa, o episódio reforça a necessidade de transparência de bancos, corretoras, distribuidores, gestores, administradores e agentes fiduciários. O investidor precisa saber, de forma clara, qual era o risco de crédito embutido no produto adquirido e quais são as consequências de uma eventual reestruturação.

Uma crise que ultrapassa as empresas

A sucessão de grandes processos de recuperação também levanta uma preocupação mais ampla: os efeitos sobre as cadeias econômicas.

Quando uma grande empresa renegocia dívidas, fornecedores podem enfrentar atrasos e perda de recebíveis; trabalhadores podem ser afetados por fechamento de unidades e cortes de postos; consumidores podem enfrentar alterações em entregas, contratos e garantias. Pequenas e médias empresas que dependem de poucos clientes de grande porte são particularmente vulneráveis porque têm menor capacidade de absorver choques de caixa.

O crédito também pode se tornar mais restritivo para empresas que sequer estão em recuperação. À medida que bancos, investidores e fornecedores percebem aumento do risco, podem reduzir limites, exigir garantias maiores ou encarecer financiamentos. O resultado pode ser uma cadeia de efeitos sobre investimentos, contratação, estoques, produção e consumo.

Para Fernando Moreira, advogado especializado em Direito Empresarial e professor da FGV, a repetição dos casos exige que o país olhe além das características particulares de cada companhia.

“Quando as recuperações judiciais batem recordes, não podemos analisar milhares de casos como se fossem fenômenos isolados. Precisamos olhar também para o ambiente de negócios brasileiro”, afirma.

Na avaliação do especialista, juros, acesso ao crédito, carga tributária, burocracia, segurança jurídica e previsibilidade para investimentos estão entre os fatores que precisam ser considerados, sem afastar a responsabilidade das próprias empresas por suas decisões financeiras e estratégicas.

A recuperação judicial e a extrajudicial existem justamente para tentar preservar empresas economicamente viáveis, reorganizando suas dívidas e evitando que uma crise financeira resulte automaticamente no encerramento das atividades. Antes da judicialização, também existem mecanismos como negociações privadas, mediações e reestruturações consensuais.

O problema é que essas alternativas dependem de tempo, liquidez e confiança entre as partes — justamente os recursos que desaparecem à medida que a crise se aprofunda.

Por isso, o sinal mais importante de 2026 talvez não esteja apenas nos grandes pedidos já protocolados, mas no número de empresas que ainda tentam sobreviver fora do Judiciário. Casas Bahia, Marabraz, Grupo Toky e Braskem podem ser diferentes em tamanho, setor e estrutura financeira, mas seus casos convergem em um ponto: o custo de adiar uma reestruturação pode aumentar rapidamente quando a geração de caixa não acompanha o endividamento.

O desafio agora é identificar quais empresas ainda possuem capacidade de reação e quais estão apenas prolongando uma crise financeira. Em um ambiente de crédito caro, consumo pressionado e competição transformada pela digitalização, a diferença entre uma reestruturação preventiva e uma recuperação judicial pode ser justamente o tempo de agir.

O avanço das recuperações, portanto, não deve ser interpretado somente como uma estatística do Judiciário. Ele funciona como um indicador da saúde financeira do setor produtivo brasileiro. Se a tendência continuar, 2026 poderá ficar marcado não apenas pelos grandes nomes que chegaram à Justiça, mas pelo início de uma fase mais ampla de reorganização empresarial, na qual capacidade de gerar caixa, disciplina financeira e antecipação dos problemas serão decisivas para determinar quais companhias conseguirão atravessar o novo ciclo sem sucumbir ao endividamento.

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