Copom mantém Selic em 15% e adota tom mais duro
18 de setembro de 2025
Redação

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, de forma unânime, manter a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano. A decisão já era amplamente esperada pelo mercado, mas o comunicado que acompanhou o anúncio trouxe um tom mais rígido do que o projetado pelos analistas.

Segundo o Copom, o cenário internacional segue marcado por incertezas, e a economia brasileira dá sinais de moderação, embora o mercado de trabalho ainda mostre resiliência. O comitê destacou riscos inflacionários relacionados à política fiscal doméstica e às tensões comerciais com os Estados Unidos, reforçando que a taxa de juros continuará em nível contracionista por um período prolongado.

Projeções de inflação

O Banco Central reduziu sua estimativa de inflação para 2025, de 4,9% para 4,8%, mas manteve inalteradas as projeções para 2026 (3,6%) e para o primeiro trimestre de 2027 (3,4%). Os números estão acima das expectativas de mercado, sinalizando que a autoridade monetária vê uma queda mais lenta dos preços no horizonte relevante.

Perspectivas

Na avaliação de Felipe Rodrigo Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, a manutenção da Selic deve prolongar a desaceleração da economia:

“O Copom reforçou sua postura de cautela, retirou a sinalização de que não retomaria o ciclo de alta e manteve a possibilidade de novos ajustes caso julgue necessário. Esse ambiente de juros elevados tende a impactar negativamente setores dependentes de crédito, como a indústria, enquanto beneficia bancos e seguradoras”, afirmou.

A Força Sindical, por outro lado, criticou duramente a decisão:

“Manter a Selic em patamares exorbitantes é um aceno aos especuladores, em detrimento do setor produtivo que gera empregos. Estamos vivendo a era dos juros extorsivos, que estrangulam a economia, o consumo e as campanhas salariais. É preciso baixar os juros já”, afirmou a entidade em nota.

Visão dos bancos

Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, destacou que o Banco Central mantém uma leitura conservadora:

“Mesmo com melhora nas expectativas do Focus e apreciação cambial, o BC não reconheceu avanços e caracterizou a inflação como acima da meta. A estratégia é manter a política monetária restritiva por um longo período, o que pode adiar o início dos cortes para 2026”, avaliou.

Na mesma linha, especialistas da Daycoval Corretora reforçaram o tom “hawkish” (mais duro) do comunicado. Gabriel Mollo, analista de investimentos, afirmou que o discurso reduz o espaço para cortes no curto prazo e tende a penalizar ações ligadas a varejo, consumo e construção civil. Já Paulo Henrique Oliveira, especialista em renda fixa, apontou que a curva de juros deve se beneficiar na ponta longa, favorecendo títulos pré-fixados de maior duração.

A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) também prevê manutenção da Selic nas próximas reuniões:

“A decisão é coerente com o cenário de inflação ainda acima da meta, mas em trajetória gradual de queda. O BC busca tempo para avaliar os efeitos do ciclo de aperto, mantendo flexibilidade para responder a choques internos e externos”, informou a entidade.

Contexto internacional

Enquanto o Brasil mantém os juros em 15%, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, anunciou corte de 0,25 ponto percentual em sua taxa, para a faixa de 4,00% a 4,25% ao ano. A medida abre um novo ciclo de flexibilização monetária no cenário internacional.

Para Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos, a decisão do Fed pode beneficiar mercados emergentes, mas não muda, por ora, a trajetória da Selic:

“Vejo como mais provável que os cortes aqui só ocorram no início de 2026. A inflação ainda mostra resiliência e o BC deixou claro que pretende manter os juros elevados por mais tempo”, analisou.

Impactos no mercado

A manutenção da Selic em 15% reforça a atratividade da renda fixa e mantém o real fortalecido frente ao dólar, devido ao diferencial de juros em relação aos EUA. Já na bolsa, setores ligados ao crédito e consumo devem enfrentar maiores dificuldades, enquanto o setor financeiro tende a se beneficiar do atual ambiente monetário.

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