Copa do Mundo de 2026 expõe nova divisão da audiência entre Globo, SBT e CazéTV e reforça diferenças entre TV e streaming
A estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026, no empate por 1 a 1 diante do Marrocos, marcou não apenas o início da campanha brasileira no torneio realizado nos Estados Unidos, México e Canadá, mas também consolidou uma profunda transformação no mercado de transmissões esportivas do país. Pela primeira vez em uma Copa do Mundo, a atenção do público foi distribuída de forma significativa entre três grandes plataformas: a TV Globo, líder histórica da televisão aberta; o SBT, impulsionado pela contratação de Galvão Bueno; e a CazéTV, principal representante do streaming esportivo nacional.

Os números registrados durante a partida revelam um cenário de fragmentação da audiência. Na Grande São Paulo, principal mercado publicitário do país, a Globo alcançou média de 30,74 pontos de audiência e participação de 49,08% dos televisores ligados. O índice garantiu liderança absoluta, mas também representou a menor audiência da emissora em jogos da Seleção Brasileira em Copas do Mundo.
A CazéTV, por sua vez, registrou média equivalente a 11,36 pontos e atingiu um pico de 12,2 milhões de aparelhos conectados simultaneamente, estabelecendo um recorde mundial para transmissões esportivas ao vivo no YouTube. Já o SBT obteve média de 8,07 pontos, com picos de 11 pontos, alcançando sua melhor marca do ano.
Apesar dos números expressivos apresentados pelas três plataformas, especialistas alertam que as comparações diretas entre audiência de televisão e audiência digital devem ser feitas com cautela. As métricas utilizadas são diferentes e medem comportamentos distintos de consumo.
A audiência da televisão aberta é calculada por institutos especializados, como a Kantar IBOPE Media, que monitoram o consumo de conteúdo em mercados específicos do Brasil. Cada ponto de audiência na Grande São Paulo corresponde atualmente a cerca de 199 mil telespectadores ou domicílios.
Já o YouTube opera em escala global. Uma transmissão da CazéTV pode ser assistida simultaneamente por usuários em qualquer estado brasileiro e também em diversos países. Além disso, a plataforma contabiliza aparelhos conectados, visualizações simultâneas, tempo de exibição e outras métricas digitais que não possuem equivalência direta com os indicadores tradicionais da televisão.
Por essa razão, afirmar que uma plataforma digital superou uma emissora de TV apenas pela comparação de números brutos pode levar a conclusões equivocadas. Trata-se de metodologias distintas, aplicadas a mercados diferentes e com alcances geográficos incomparáveis.
Outro elemento importante para compreender o cenário atual é a mudança no perfil das transmissões esportivas da Globo. Durante décadas, a emissora teve em Galvão Bueno sua principal referência narrativa nas coberturas da Seleção Brasileira e das Copas do Mundo. Sua voz se tornou parte da memória afetiva de gerações de torcedores e contribuiu para a construção da identidade esportiva da emissora.
Com a saída de Galvão, a Globo iniciou um processo de renovação de seu quadro de narradores. Embora conte com profissionais experientes e reconhecidos, como Everaldo Marques, Luis Roberto e Gustavo Villani, o processo de substituição de um comunicador que esteve à frente das principais conquistas do futebol brasileiro ao longo de décadas naturalmente exige tempo para consolidar o mesmo grau de identificação junto ao público.
Enquanto isso, o SBT encontrou justamente em Galvão Bueno um diferencial competitivo. Narrando sua primeira Copa do Mundo fora da Globo desde 1982, o jornalista ajudou a impulsionar os índices da emissora, acompanhado pelos comentaristas Muricy Ramalho e Mauro Beting.
No ambiente digital, a CazéTV consolidou um modelo voltado para novas gerações de consumidores de conteúdo. A parceria entre Casimiro Miguel e a LiveMode transformou o streaming em uma alternativa principal de consumo esportivo. Além disso, a plataforma possui uma vantagem estratégica importante: é a única que transmitirá as 104 partidas da Copa do Mundo de 2026, enquanto a Globo exibirá 55 jogos e o SBT terá direitos sobre 32 confrontos.
Após a partida, a disputa pelos números continuou fora de campo. A Globo informou que suas plataformas integradas — TV Globo, SporTV, Globoplay e GE TV — alcançaram 46,4 milhões de pessoas na estreia da Seleção Brasileira, utilizando uma metodologia deduplicada que evita contar o mesmo usuário em diferentes telas.
Ao mesmo tempo, o mercado publicitário acompanha a evolução dessas métricas e cobra mecanismos cada vez mais precisos para medir o alcance real das transmissões. Um dos principais desafios é evitar a sobreposição de dados, já que um mesmo torcedor pode assistir ao jogo pela televisão e, simultaneamente, acompanhar estatísticas ou conteúdos complementares em dispositivos digitais.
Independentemente da disputa estatística, a Copa do Mundo de 2026 deixa uma constatação clara: o modelo de concentração de audiência que caracterizou o futebol brasileiro durante décadas está sendo substituído por um ambiente de múltiplas plataformas. A televisão aberta continua exercendo papel central e mantém grande capacidade de alcance, mas divide espaço com o streaming e outras formas de consumo digital.
Mais do que uma disputa entre vencedores e perdedores, o cenário atual demonstra que o torcedor passou a escolher onde, como e em qual tela deseja acompanhar os grandes eventos esportivos. A audiência não desapareceu. Ela apenas se distribuiu por diferentes plataformas, cada uma com sua linguagem, seu público e sua própria forma de medição.