O aumento recente do preço do petróleo voltou a pressionar a inflação brasileira e recolocou os choques de oferta no centro do debate econômico. Estudo divulgado pelo Departamento de Pesquisas Econômicas (DPEc) aponta que cerca de 60% da alta do IPCA acumulado no primeiro trimestre de 2026 teve origem em fatores ligados à oferta, especialmente ao avanço das commodities energéticas no mercado internacional.
Segundo o levantamento, a inflação acumulada em três meses no primeiro trimestre deste ano ficou em 1,4%, sendo aproximadamente 0,82 ponto percentual provocado pelo componente de oferta. Já o componente de demanda respondeu por 0,35 ponto percentual, indicando que, embora a economia brasileira ainda opere acima do potencial, o principal vetor inflacionário do momento está relacionado ao encarecimento do petróleo e seus efeitos indiretos sobre preços e expectativas.

O estudo destaca que a elevação do barril do petróleo impacta a inflação brasileira por dois canais simultâneos. O primeiro é direto, com aumento dos preços administrados, principalmente combustíveis, energia e itens industriais dependentes de derivados do petróleo. O segundo ocorre de forma indireta, quando o choque influencia as expectativas de inflação e acaba contaminando o setor de serviços por meio da chamada inércia inflacionária.
De acordo com o DPEc, o atual cenário guarda semelhanças com o período de 2021 e 2022, quando a inflação brasileira atingiu níveis superiores a 10% ao ano após os impactos da pandemia e da guerra entre Rússia e Ucrânia. Naquele momento, o avanço do petróleo e das commodities elevou fortemente o componente de oferta da inflação, enquanto a retomada da atividade econômica passou a reforçar também o lado da demanda.
O relatório lembra que, em 2022, o choque provocado pela guerra no Leste Europeu levou o componente de oferta para mais de cinco pontos percentuais do IPCA acumulado em 12 meses. O resultado foi um pico inflacionário de 11,8% ao ano no segundo trimestre daquele ano.
Agora, um novo cenário geopolítico volta a pressionar os preços internacionais do petróleo. Segundo o estudo, a recente escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã fez o barril subir de cerca de US$ 64 no quarto trimestre de 2025 para aproximadamente US$ 80 no primeiro trimestre de 2026, com momentos em que a cotação ultrapassou os US$ 100.
Os economistas avaliam, porém, que o atual movimento não se compara ao antigo ciclo de alta estrutural das commodities observado antes de 2014, impulsionado pela forte expansão da economia chinesa. A expectativa é que, após um período de maior instabilidade internacional, os preços do petróleo retornem gradualmente aos patamares anteriores ao conflito, desde que não haja deterioração permanente da estrutura produtiva global do setor petrolífero.
Mesmo com possível acomodação futura, os efeitos já aparecem na inflação brasileira. O levantamento mostra que os preços administrados são os mais sensíveis ao choque do petróleo. No primeiro trimestre de 2026, o componente de oferta nos preços administrados ficou em torno de 1,5 ponto percentual, enquanto nos preços livres permaneceu próximo de 0,4 ponto percentual.
O estudo também aponta que as expectativas de inflação seguem fortemente influenciadas pelos choques de oferta. A decomposição das projeções do mercado mostra que, no primeiro trimestre de 2026, o componente de oferta representou cerca de 2,2 pontos percentuais das expectativas inflacionárias, acima dos 1,5 ponto percentual ligados à demanda.
Na avaliação dos pesquisadores, esse comportamento reforça o risco de persistência inflacionária, já que expectativas elevadas acabam alimentando reajustes de preços no setor de serviços e dificultando o trabalho do Banco Central para reconduzir a inflação à meta de 3%.
O relatório ressalta ainda que, apesar de os choques de oferta serem considerados mais transitórios do que os de demanda, o atual cenário apresenta fatores adicionais de preocupação. Entre eles estão a desancoragem das expectativas inflacionárias, o hiato do produto ainda positivo, a volatilidade cambial, as incertezas fiscais e o ambiente eleitoral.
Os economistas alertam que esses elementos podem ampliar os chamados efeitos de segunda ordem, quando o aumento inicial dos combustíveis se espalha por toda a economia, contaminando núcleos mais persistentes da inflação.
O estudo também compara o momento atual ao período entre 2012 e 2015, quando a inflação brasileira era puxada predominantemente pela demanda aquecida, desemprego baixo e crescimento acima do potencial. Naquela época, o componente de demanda chegou a responder por mais de seis pontos percentuais do IPCA acumulado, culminando em inflação de dois dígitos em 2015 após reajustes de tarifas e deterioração das expectativas.
Para o DPEc, a principal conclusão é que, embora o atual repique inflacionário tenha origem majoritariamente em choques de oferta, isso não elimina a necessidade de atenção sobre demanda e expectativas. O estudo avalia que uma redução prematura do aperto monetário pode ampliar os riscos inflacionários, repetindo parte da dinâmica observada no ciclo pós-pandemia.