Alimentos e bebidas perdem lucratividades
23 de agosto de 2026
Redação

Os resultados financeiros do segundo trimestre de 2026 das principais empresas do setor de alimentos e bebidas no Brasil revelam um cenário em que o volume de vendas e o crescimento de receita não foram suficientes para blindar a lucratividade. Uma análise setorial realizada por Edson Kawabata, sócio-diretor da Peers Consulting + Technology, aponta que a eficiência das margens operacionais e o gerenciamento de ciclos de commodities globais foram os fatores determinantes para o desempenho das companhias no período.

O trimestre foi caracterizado pelo impacto de eventos não recorrentes nos balanços e pela forte pressão nos custos logísticos e de matéria-prima, especialmente na operação de carne bovina na América do Norte. Em contrapartida, estratégias voltadas para a premiumização de portfólio e ações sazonais de marketing vinculadas à Copa do Mundo de 2026 atuaram como mitigadores de perdas.

Desempenho dos principais players do mercado

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Ambev

A receita líquida da fabricante de bebidas registrou estabilidade ao crescer 0,3% em termos nominais (avanço orgânico de 6,1%), totalizando R$ 20.148,9 milhões. O desempenho foi sustentado pela divisão de Cerveja Brasil, que teve expansão de 5% em volume. A margem bruta subiu 190 pontos-base, atingindo 51,9%, e o Ebitda ajustado avançou 3,6%, somando R$ 6.376,7 milhões. Embora o lucro líquido ajustado tenha saltado 23,3% para R$ 3.492,7 milhões, o resultado foi impulsionado por itens não recorrentes. Instituições financeiras como XP, BTG, Itaú BBA e Citi classificaram a receita e o Ebitda abaixo das projeções, o que provocou queda de aproximadamente 3% nas ações no dia da divulgação.

  • Estratégia: Ativação comercial focada na Copa do Mundo 2026 e forte aposta no segmento premium (a Michelob Ultra triplicou o volume de vendas no Brasil e na Argentina) para conter a concorrência no mercado de massa.

JBS

A companhia atingiu receita líquida recorde para o trimestre, somando US$ 23.899,6 milhões (alta de 13,8%), impulsionada pelas operações da JBS Austrália (+30%), JBS Brasil (+28%) e Seara (+18,2%). Contudo, a margem bruta recuou para 10,8% e o Ebitda ajustado caiu 18,5%, fixando-se em US$ 1.429 milhões devido ao desempenho negativo da divisão Beef North America. Influenciada por fatores não recorrentes, a JBS registrou prejuízo líquido de US$ 102 milhões. O lucro ajustado foi de US$ 218 milhões, retração de 62,3% na comparação anual.

  • Estratégia: Reestruturação da operação de bovinos nos Estados Unidos com o fechamento de duas plantas operacionais e a fusão de divisões na marca “Beef USA”. O anúncio de sucessão do CEO global para janeiro de 2027 gerou reação negativa na NYSE, com queda de 5,7% nas ações.

M. Dias Branco

A receita líquida permaneça estável (-0,9%), somando R$ 2.699,3 milhões, apesar do incremento de 4,4% no volume total comercializado (477,3 mil toneladas). O avanço de volume permitiu ganho de participação em um mercado que encolheu 4%, segundo dados da Nielsen. A queda de 3% a 5% no preço médio dos produtos foi influenciada pela redução nos custos de farinha industrial e gordura vegetal, elevando a margem bruta para 34,2%. O Ebitda recuou 17,5%, totalizando R$ 284,4 milhões, pressionado por despesas gerais, administrativas e de vendas (SG&A), que atingiram 27,4% da receita. O lucro líquido caiu 22%, fechando em R$ 168,9 milhões.

  • Estratégia: Expansão de dois dígitos nas marcas de adjacências (Jasmine, Frontera, Smart e Tyrrells) e manutenção de altos investimentos em marketing voltados à Copa do Mundo para sustentar o market share.

MBRF (Marfrig e BRF)

A receita consolidada do grupo avançou 4,9%, atingindo R$ 40.720 milhões, com volume recorde de 1,969 milhão de toneladas. O mercado externo foi o principal motor de crescimento, com alta de 16,5% em volume contra 0,4% no mercado interno. O lucro bruto somou R$ 4.868 milhões (margem de 12%) e o Ebitda ajustado cresceu 5,4%, chegando a R$ 3.203 milhões. A BRF respondeu por 79% do Ebitda consolidado. O lucro líquido fixou-se em R$ 69 milhões (queda de 19,6%), impactado por despesas financeiras e um índice de alavancagem de 3,41 vezes a relação dívida líquida/Ebitda.

  • Estratégia: Foco na execução do programa de sinergias “MBRF+” pós-fusão e concentração de investimentos nas operações da BRF e da Beef América do Sul, enquanto a unidade National Beef operou próxima do equilíbrio técnico (margem de 0,7%).

Perspectivas, desafios e gatilhos do setor

O diagnóstico de Edson Kawabata aponta três grandes vetores que devem ditar os rumos do setor nos próximos trimestres:

  • Predomínio da Margem sobre o Volume: O desempenho da JBS ilustra o cenário setorial. O crescimento de dois dígitos no faturamento foi anulado pela contração das margens operacionais, indicando que a eficiência de custos internos é mais vital no momento do que a expansão de vendas.
  • Premiumização como Escudo: O investimento em marcas de maior valor agregado (como os produtos saudáveis e importados da M. Dias Branco e a linha premium da Ambev) consolida-se como a principal rota de fuga contra a perda de rentabilidade em produtos comoditizados.
  • O Ciclo de Pecuária nos EUA: A escassez de gado para abate no mercado norte-americano continua pressionando as margens da National Beef (MBRF) e da Beef North America (JBS). O principal gatilho de curto prazo para aliviar esse cenário é a reabertura das importações de gado vindas do México, cujo monitoramento técnico torna-se prioritário para estimar a recuperação das margens dessas companhias.

Por fim, o setor enfrenta o desafio de repassar preços em um ambiente de consumidores pressionados por taxas de juros elevadas, além de lidar com o ceticismo do mercado financeiro quanto à qualidade dos lucros reportados, dado o alto peso de créditos e débitos não recorrentes na composição dos resultados finais.

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