Os resultados financeiros do segundo trimestre de 2026 das principais empresas do setor de alimentos e bebidas no Brasil revelam um cenário em que o volume de vendas e o crescimento de receita não foram suficientes para blindar a lucratividade. Uma análise setorial realizada por Edson Kawabata, sócio-diretor da Peers Consulting + Technology, aponta que a eficiência das margens operacionais e o gerenciamento de ciclos de commodities globais foram os fatores determinantes para o desempenho das companhias no período.
O trimestre foi caracterizado pelo impacto de eventos não recorrentes nos balanços e pela forte pressão nos custos logísticos e de matéria-prima, especialmente na operação de carne bovina na América do Norte. Em contrapartida, estratégias voltadas para a premiumização de portfólio e ações sazonais de marketing vinculadas à Copa do Mundo de 2026 atuaram como mitigadores de perdas.
Desempenho dos principais players do mercado

Ambev
A receita líquida da fabricante de bebidas registrou estabilidade ao crescer 0,3% em termos nominais (avanço orgânico de 6,1%), totalizando R$ 20.148,9 milhões. O desempenho foi sustentado pela divisão de Cerveja Brasil, que teve expansão de 5% em volume. A margem bruta subiu 190 pontos-base, atingindo 51,9%, e o Ebitda ajustado avançou 3,6%, somando R$ 6.376,7 milhões. Embora o lucro líquido ajustado tenha saltado 23,3% para R$ 3.492,7 milhões, o resultado foi impulsionado por itens não recorrentes. Instituições financeiras como XP, BTG, Itaú BBA e Citi classificaram a receita e o Ebitda abaixo das projeções, o que provocou queda de aproximadamente 3% nas ações no dia da divulgação.
JBS
A companhia atingiu receita líquida recorde para o trimestre, somando US$ 23.899,6 milhões (alta de 13,8%), impulsionada pelas operações da JBS Austrália (+30%), JBS Brasil (+28%) e Seara (+18,2%). Contudo, a margem bruta recuou para 10,8% e o Ebitda ajustado caiu 18,5%, fixando-se em US$ 1.429 milhões devido ao desempenho negativo da divisão Beef North America. Influenciada por fatores não recorrentes, a JBS registrou prejuízo líquido de US$ 102 milhões. O lucro ajustado foi de US$ 218 milhões, retração de 62,3% na comparação anual.
M. Dias Branco
A receita líquida permaneça estável (-0,9%), somando R$ 2.699,3 milhões, apesar do incremento de 4,4% no volume total comercializado (477,3 mil toneladas). O avanço de volume permitiu ganho de participação em um mercado que encolheu 4%, segundo dados da Nielsen. A queda de 3% a 5% no preço médio dos produtos foi influenciada pela redução nos custos de farinha industrial e gordura vegetal, elevando a margem bruta para 34,2%. O Ebitda recuou 17,5%, totalizando R$ 284,4 milhões, pressionado por despesas gerais, administrativas e de vendas (SG&A), que atingiram 27,4% da receita. O lucro líquido caiu 22%, fechando em R$ 168,9 milhões.
MBRF (Marfrig e BRF)
A receita consolidada do grupo avançou 4,9%, atingindo R$ 40.720 milhões, com volume recorde de 1,969 milhão de toneladas. O mercado externo foi o principal motor de crescimento, com alta de 16,5% em volume contra 0,4% no mercado interno. O lucro bruto somou R$ 4.868 milhões (margem de 12%) e o Ebitda ajustado cresceu 5,4%, chegando a R$ 3.203 milhões. A BRF respondeu por 79% do Ebitda consolidado. O lucro líquido fixou-se em R$ 69 milhões (queda de 19,6%), impactado por despesas financeiras e um índice de alavancagem de 3,41 vezes a relação dívida líquida/Ebitda.
Perspectivas, desafios e gatilhos do setor
O diagnóstico de Edson Kawabata aponta três grandes vetores que devem ditar os rumos do setor nos próximos trimestres:
Por fim, o setor enfrenta o desafio de repassar preços em um ambiente de consumidores pressionados por taxas de juros elevadas, além de lidar com o ceticismo do mercado financeiro quanto à qualidade dos lucros reportados, dado o alto peso de créditos e débitos não recorrentes na composição dos resultados finais.